Já faz um tempo que tive a ideia de escrever sobre esse assunto. Mas relutei bastante em realmente explicitar isso. Não por medo da polêmica ou receio de despertar fúrias e paixões, e sim porque havia tanta gente falando sobre a mesma coisa e ao mesmo tempo que achei desnecessário ser mais um a se mostrar interessado em algo (a meu ver) tão pequeno.
Fato é que não gosto de chutar cachorro morto, bater em bêbado ou amassar sorvete na testa. Anyway... certas coisas urgem dentro de mim para serem ditas. Ou escritas, vá lá.
Não que eu seja arrogante (e as prima-donas dirão o contrário) mas minha experiência de vida me ensinou - ou tem tentado me ensinar - a ter paciência com os desprovidos de bom senso e bom gosto, ou que não possuem quociente intelectual o bastante para saberem diferenciar um semáforo de um cacho de uvas.
Durante esse exercício de paciência acabo ouvindo muita - com o perdão da palavra - mer_ _ em forma de música.
Passei a ver isso como uma involução de algo que eu mesmo batizei de onomatopeia music. Explico, caro leitor: trata-se de um gênero musical, sem raízes definidas, que emaranha-se por outros gêneros e sub-gêneros musicais.
A onomatopeia music tem origens muito primitivas, mas tornou-se popular através de certos temas roqueiros dos idos dos anos 50 e 60.
O cantor e pianista Little Richard deu o pontapé inicial no estilo com sua "Tutti Frutti", de 1955. Quem não se lembra da empolgante frase "A Whop Bop a Loom a Whop a Lop Bam Boom!", que nada mais era que a representação de uma explosão de tesão?
Em 1956 foi a vez de outro roqueiro americano, Gene Vincent, com "Be-Bop-A-Lula", endossar a onomatopeia music com mais um clássico.
Nos anos 60 podemos destacar "Papa Oom Mow Mow" (1962), tema do grupo de doo-wop The Rivingtons, revisitado ano seguinte pelo combo de surf music The Trashmen em "Surfin' Bird".
Alguns anos depois foi a vez dos incontestáveis Beatles se aventurarem também pelo estilo. Em 1968 saiu "Ob-La-Di, Ob-La-Da". A música, que faz parte do famoso Álbum Branco do quarteto de Liverpool já foi alvo de piadas e, na época que foi gravada, causadora de tensões dentro da banda. Conta-se que John Lennon odiava a canção, que era uma criação de Paul.
Mas "Ob-La-Di, Ob-La-Da" ganha pontos com sua letra que, excetuando-se o bobo refrão, possui um certo sentido, pois retrata o entediante cotidiano de uma família inglesa de classe média formada por um casal e duas crianças.
Doze anos depois dos Beatles foi a vez dos também ingleses da The Police gravarem sua "De Do Do Do, De Da Da Da" - canção que trata da inutilidade da eloquência nas palavras e nos discursos quando os interlocutores não se entendem.
Aliás, deixo bem claro, que a onomatopeia music não se trata apenas de um gênero musical que explora os refrões grudentos ou desprovidos de massa cinzenta. Se assim fosse, a música "Bate o Pé", do português Roberto Leal, seria um exemplo acabado de onomatopeia music. O mesmo poderia se dizer da divertida "Macarena", obra do duo espanhol Los del Rio que conquistou o mundo em 1996.
O Brasil tem se lançado com avidez no estilo, sem, entrementes, se preocupar nem um pouco com a semântica, com a lógica e - o que me incomoda mais - com meus ouvidos.
Não bastassem as bandas de pagode, que inserem um "lá-lá-iá" na letra mesmo quando acabaram de falar de um coração que está sangrando ou de um sujeito apaixonado que perdeu o sentido da vida depois de levar uma corneada federal, agora é a vez dos sertanejos universitários enfiarem as botas e esporas na porta do estilo. Só que, por razões que avaliaremos a seguir, de forma não tão bem sucedida assim.
No último ano pelo menos duas canções arrebentaram a porteira e invadiram as rádios do país. Tratam-se de "Balada Boa (Tche Tche Rere)", do cantor mineiro Gusttavo Lima; e da dupla de Goiânia (Claro. Onde mais?) João Lucas & Marcelo, com a sua "Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha".
Assumo que não me adianta espernear e arrancar os cabelos, pois o tal sertanejo universitário, ao que tudo indica, foi aprovado em algum concurso por aqui mesmo e não vai realizar o meu sonho e de seus detratores de deixar o país para fazer um mestrado lá fora. É fato que esse povo chegou para ficar. O estilo veio se unir ao axé e ao funk para juntos formarem a tríade da música descerebrada.
Não querendo ser preconceituoso, mas, convenhamos que as músicas que falam sobre festas e pegação já foram bem melhores. Em 1963 a cantora Lesley Gore lançou para a posteridade os versos escritos pelos compositores Walter Gold, John Gluck Jr. e Herb Weiner. Trata-se de "It's My Party", canção que fala, de modo até divertido, da dor de cotovelo de uma garota que dá uma festa em sua própria casa e fica sabendo que o namoradinho ficou com outra debaixo do seu nariz. A música ficou famosa ao figurar numa sequência de um dos filmes da franquia infantil "O Pestinha". Chegou também a ser regravada por Amy Winehouse, uma notória amante dos temas e da cultura vintage em geral.
No entanto, convenhamos que há uma enorme diferença entre os versos "Ninguém sabe onde meu Johnny foi, mas Judy saiu ao mesmo tempo. Porque ele estava segurando sua mão, quando era para ser a minha? É minha festa e eu choro se eu quiser, choro se quiser, choro se quiser. Você também choraria se fosse com você." ("It's My Party"), repletos de ironia e daquele melodrama tão característico dos jovens, e as letras de "Balada Boa (Tche Tche Rere)" e "Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha".
Enquanto a primeira diz "Eu já lavei o meu carro, regulei o som. Já tá tudo preparado, vem que o brega é bom. Menina fica a vontade, entre e faça a festa. Me liga mais tarde, vou adorar, vamos nessa. Gata, me liga, mais tarde tem balada. Quero curtir com você na madrugada. Dançar, pular até o sol raiar.Tchê tcherere tchê tchê, Tcherere tchê tchê, Tcherere tchê tchê, Tchereretchê Tchê, tchê, tchê, Gustavo Lima e você"; a segunda não vai muito além em termos de nonsense: "Cheguei na balada, doidinho pra biritar. A galera tá no clima, todo mundo quer dançar. O Neymar me chamou, e disse 'faz um tchu tcha tcha'. Perguntei o que é isso, ele disse 'vou te ensinar'. É uma dança sensual, em Goiânia já pegou, em Minas explodiu, em Santos já bombou. No Nordeste as mina faz, no verão vai pegar. Então faz o 'tchu tcha tcha', o Brasil inteiro vai cantar. Eu quero tchu, eu quero tcha. Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha, tchu tcha tcha tchu tchu tcha". Perceberam? Está tudo embolado aí!
Atiça minha curiosidade querer saber onde e quando a cultura pop errou. Como diabos passamos da festa estranha com gente esquisita que lia Bandeira e Rimbaud; apreciava Van Gogh; ouvia Bauhaus, Mutantes e Caetano, para essa geração que curte brega, baladas, meninas à vontade e Neymar?
Convenhamos: existe aí um abismo muito grande. Fica a dica para qualquer sociólogo que queira se aventurar no tema.
Certamente que a música pop não carece de muito sentido, e muito menos de erudição. A música pop foi feita para ser leve, rápida e divertida. Cabe ao rock progressivo e também à música clássica a responsabilidade pela sofisticação.
Levando-se em conta de que os sertanejos universitários queiram mesmo se aventurar pelo pop, sugiro-lhes ao menos que procurem fazer versos melhores que "Goiânia já pegou, em Minas explodiu, em Santos já bombou. No Nordeste as mina faz (sic)", ou "Se você me olhar vou querer te pegar, e depois namorar. Curtição, que hoje vai rolar".
Do jeito que as coisas vão, se não forem mais inteligentes do que isso, vai ficar até difícil para mim classificá-los como onomatopeia music.





















