quinta-feira, 25 de março de 2010

Renato Russo (uma análise)

Se estivesse vivo, Renato Manfredini Júnior completaria 50 anos no próximo dia 27 de março.
Apesar das vozes em contrário - que injustamente criticam seu alter ego, Renato Russo, de pretenso messiânico - o artista veio a se tornar a mais importante legenda do rock brasileiro das décadas de oitenta e noventa.
Infelizmente, ser popular no Brasil é como ser portador de uma doença horrenda e terrivelmente contagiosa. Afinal, estamos falando do mesmo país que rejeitou sua maior diva, Carmem Miranda, quando algumas vozes se levantaram, taxando-a de "americanizada" demais. E não foi esse mesmo Brasil que crucificou em vida um de seus maiores artistas, Wilson Simonal?
Talvez isso explique o fato de que, ainda hoje, algumas pessoas apontem Cazuza como maior e melhor compositor que Renato. Há até quem diga que Raul Seixas excedeu a ambos. Polêmicas à parte, o fato é que a música de Cazuza teve seu vórtice na poesia dos bares e morros cariocas, herdou o sangue do samba velha guarda de Cartola e o bateu no liquidificador dos inferninhos frequentados pela classe média do Rio da década de oitenta. Já a música de Raulzito, transmitia uma mensagem de iluminação, tanto espiritual quanto política. E não poderia ser de outra forma, já que era preciso falar por meio de enigmas, para não despertar os censores do regime militar e suas tesouras ideológicas.
Com a música de Renato era outra história. A sua mensagem era clara e objetiva. Era intimista, pessoal, falava em primeira pessoa. O próprio Renato disse certa vez que foi abordado de forma agressiva por um rapaz que o acusava de ter tornado público, através de uma música, um drama pessoal seu. Renato Russo apenas se defendeu, como chegou a dizer várias vezes: "Gente, é só letra de música". E quem, como em "Índios", não sentiu saudades de algo que ainda não viu? Ou não foi tão criança a ponto de saber tudo, como em "Quase Sem Querer"? Quem não pediu para dormir com os pais depois de ter tido um pesadelo ("Pais e Filhos")?
A música de Renato Russo também era crítica e ácida. Criticava a inércia de uma juventude classe média e junkie, mas que se achava o máximo por ser versada nos grandes intelectuais como Marx, Engels e Jung ("Conexão Amazônica"). A mesma juventude viciada reaparece, alimentando a violência nos grandes centros, em "Mais do Mesmo". Em "O Reggae" e "Faroeste Caboclo" (essa última, um de seus clássicos), o homem é visto de forma regressiva, não evolutiva, começando sua história como uma criança comum, mas sendo esmagado e embrutecido aos poucos pela engrenagem desumana da sociedade. No fim é empurrado para o desperdício da vida através do crime. Foucault não poderia ter sido melhor traduzido.
Mas no universo musical criado por Renato Russo e sua Legião Urbana, nenhum tema é mais abordado do que o amor. E falo do amor em todas suas formas. Renato nos mostra o amor paranóico ("Será"), dependente ("Ainda é Cedo"), obsessivo e violento ("Acrilic on Canvas") e refém do destino ("Eduardo e Mônica"). Um amor imperativo. Que afirma, sem sombra de dúvidas, que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Como todo amor que começa, Renato nos diz que o amor também tem seu fim. E quem não viveu o fim de um amor? Quem poderia afirmar que esse fim não foi perfeitamante retratado em "Andrea Doria"? Ou quem não viu com sofrimento, a pessoa - outrora amada - caindo nos braços de outro alguém, como em "Os Barcos"? Bissexual assumido, Renato Russo cantou o amor gay, ainda que metaforicamente, em "Soldados", "Daniel na Cova dos Leões" e "Meninos e Meninas".
Cantou o amor que acontece em cada canto desse país, da grande cidade, ao mais ermo interior. O amor da gente simples, como o da moça que trabalha no correio e que namora o menino eletricista ("O Descobrimento do Brasil"), ou o amor dos recém casados de "O Mundo Anda Tão Complicado". Até mesmo quando se apropriou de um soneto de Camões e de trechos de uma epístola do apóstolo Paulo, Renato Russo compôs o mais belo hino ao amor feito por alguém da geração oitenta do rock nacional: "Monte Castelo".
Foi Renato Russo quem deu nome a geração que entrou na juventude nos anos 80. Filhos do milagre econômico do governo militar, em parte alienados, mas em grande parte anos luz à frente em termos de politização que a turma de hoje, aquela era a "Geração Coca Cola". Já naquela época havia caos na saúde pública ("Metrópole") e o povo queria um representante do proletariado no poder ("Fábrica").
Você leitor, que está lendo essas linhas agora, pode até não gostar de Renato Russo ou da Legião Urbana. Até entendo. Mas, convenhamos que há de se respeitar o homem que ousou com propriedade e verborrágica indignação, há 32 anos atrás, pintar um quadro da nação, que infelizmente ainda permanece intacto: o da corrupção política. Falo da música "Que País é Este?". Quem discordar, me diga se não há realmente tanta sujeira nas favelas quanto no Senado Federal.
Muita gente tentou fazer rock como a Legião Urbana. Ninguém conseguiu. De Uns e Outros, passando por Catedral, até os conterrâneos do Cogumelo Plutão. Repetir Renato Russo é impossível.
Renato Manfredini Júnior, faleceu de complicações decorrentes da AIDS, no dia 11 de outubro de 1996. Infelizmente, o mesmo homem que aconselhava seus fãs a fazerem (nas palavras do próprio Renato) "sexo seguro ou nenhum sexo", caiu no vacilo de contrair o vírus HIV. Hipocrisia? Nem tanto. Talvez falha humana mesmo. Pois como ele mesmo disse, "Ninguém é senhor do meu domínio".
De lá pra cá, as vendas de seus discos apenas aumentaram. E o culto à sua pessoa também. E é esse culto necrófilo que provoca indignação em muito fã. E em muito "NÃO FÃ" também! Uma vez que, para as pessoas de um modo geral, há um público que (realmente) só ouve o Renato Russo que toca nas rádios, e acaba ficando a imagem de que seus admiradores são pessoas sem conteúdo, que curtem Renato e Legião só porque "é legal". Assim como muitos gostam de Kurt Cobain, por exemplo.
A história do mito Renato Russo se confunde com a história de seu criador Renato Manfredini. Ele é o animal sentimental que se apega facilmente. É o cidadão que acredita que o Brasil é o país do futuro. Ele é o rosto sendo cortado pelo vento do litoral e a pessoa que lamenta o fato de os bons morrerem jovens. Ele é o sujeito que tentou descobrir porque é mais forte quem sabe mentir, e acabou descobrindo o porquê. Porque mentir é fácil demais. Renato é como qualquer pessoa que um dia deixou a segurança do seu mundo por amor.
Renato Manfredini Júnior, se foi em 11 de outubro de 1996. Ficou, para sempre, Renato Russo. No dia de seu aniversário, deixemos de celebrar a estupidez humana para nos lembrarmos de alguém que, tão profundamente, nos confrontou com os melhores sentimentos e ideais que podemos ter. Afinal, a vida de Renato Russo não foi tempo perdido.

7 comentários:

Bleffe disse...

Começou a votação popular que vai escolher 4 bandas/artistas que vão integrar o calendário do Conexão Vivo 2010.

Esse ano serão 50 bandas/artistas incluídos. 46 escolhidos pela curadoria, e 4 por votação online.

O Bleffe concorre, e, mais uma vez, contamos com o seu voto pra integrar esse time:

Saiba como votar clicando no link:




http://bleffepoprock.blogspot.com/2010/03/vote-bleffe-no-conexao-vivo.html




http://bleffepoprock.blogspot.com/2010/03/vote-bleffe-no-conexao-vivo.html

Ana Kelen disse...

Amor, esse blefe ai entrou só pra bagunçar... mas continuando, ainda bem que voce é a pessoa que escreve da relação! Mais um dos textos perfeitos, que dizem o que eu quero dizer (igual o Renato fazia).

Juciê Lacerda disse...

POr isso, que esse fofo conquistou minha prima! A Genialidade espontânea e autêntica, diz muito do que ele é.
O que você escreveu poderia facilmente ser transformado em artigo dos melhores josrnais do país. Como os melhores josnais não gostam de coisas boas, deixem ele ai só para nós.

p.s. lembro q minha prima gravava tudo da LEGIÃO em VHS. É O NOVOOOOOOOOOOOOOOOOOOO

Geilson Nascimento disse...

Cara...

Tem visto o que o messi tá jogando? è brincadeira não é não?

isah martiins disse...

Eu sou super fã do Renato Russo e do legião!

xx_daniela disse...

Excelente o seu texto, eu particularmente nunca vi ninguém descrevendo Renato e a Legião como você. Está de parabéns, um ótimo texto!

Eraldo Paulino disse...

Não é o melhor texto que li na vida sobre o Renato Russo, mas nos últimos anos e na blogsfera é o melhor. Fã que sou da Legião, só posso te agradecer pela genialidade das linhas.

Abração!